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4 reproduções

Violent Femmes: Hallowed Ground, 1985

por Roger Marmo

★★★★

O segundo disco do Violent Femmes pode ser incluído no time dos “segundos discos que afugentaram a maioria dos fãs”, juntamente com… bem, não me lembro de nenhum outro agora, mas vou tentar explicar o que isso quer dizer…

O primeiro álbum, homônimo, de 1982, levou os Femmes se não ao superestrelato, pelo menos ao status de ídolos indie, numa época em que essa denominação provavelmente ainda não existia. Principalmente em meio ao público universitário, lançando as bases, juntamente com outros grupos iniciantes como o R.E.M., do que acabou se convencionando chamar, de maneira bem vaga, de “college rock”.

Esse apelo se devia em grande parte às letras do cantor e guitarrista Gordon Gano, repletas de angústia pós-adolescente e frustração sexual, algo ainda incomum em uma época e lugar onde o vagalhão punk tinha chegado com pouca força após atravessar o Atlântico, e os sobreviventes do hard-rock setentista ainda reinavam.

O que “Hallowed Ground” entregou aos que esperavam mais um hit como “Blister in the Sun” foi o outro lado de Gordon Gano: o cristão devoto. Mas isso não quer dizer que o cara que antes cantava “why can’t I get just one fuck?” de repente apareceu de bem com a vida após ter encontrado Jesus. O tipo de fé que Gano professava era de uma cepa mais conflituosa e desesperada, repleta de culpa e paranóia, talvez resultante do fato dele ser filho de um pastor Batista.

Teologica e filosoficamente falando esse não é exatamente um jeito muito agradável de se levar a vida, mas pelo menos musicalmente esse tipo de espirituosidade costuma gerar resultados bem mais interessantes do que qualquer bandinha gospel, dando origem a uma linhagem musical chamada às vezes de “American Gothic”, às vezes de “Southern Gothic”, que se estende desde Johnny Cash até grupos atuais como Sixteen Horsepower, passando por este álbum.

A faixa de abertura já resume o disco apenas com o título: “Country Death Song”, que narra a história de um sujeito que decide que a única saída para a situação desesperada em que sua família se encontra é levar as filhas até uma caverna e atirá-las em um poço sem fundo, lembrando-as antes de que “good children go to heaven”.

As músicas que se seguem dão continuidade ao clima sombrio, como “Never Tell”, e incluem até mesmo hinos de louvor sem um pingo de ironia, como “Jesus Walking On The Water”, o que deixou a crítica da época desnorteada a ponto de classificar a banda como “Contemporary Christian”. Uma faixa como “Sweet Misery Blues” até remete ao Violent Femmes do primeiro disco, com sua narrativa de paixão não-correspondida, mas dessa vez o narrador está mais próximo de um “stalker” obcecado, enquanto um clarinete choroso manda a música direto de volta pra década de 1930.

De modo geral a instrumentação de “Hallowed Ground” ainda se baseia em instrumentos acústicos, principalmente no baixo desenfreado de Brian Ritchie, mas expandindo um pouco mais os arranjos, incluindo de rabecas até “jaw-harps”, e até uma seção de metais que conta com a participação de ninguém menos que John Zorn, com seus inconfundíveis sax e apitos pra chamar patos.

Os discos seguintes do Violent Femmes melhoraram um pouco de humor, mas nenhum deles, na minha opinião, se aproxima do brilhantismo da dobradinha “Violent Femmes”/”Hallowed Ground”, excetuando uma ou outra música (como a inesquecível “I Held Her In My Arms”, do álbum “The Blind Leading the Naked”). Infelizmente.

Ah, e se alguém se lembrar de algum outro exemplo de “segundo disco que afugentou os fãs do primeiro”, favor deixar sua contribuição nos comentários…

música pra ouvir: Country Death Song

comentários originais

Richarley Menescal 23/09/2006: Ae Bela, curti o blog! RSS do blog já devidamente adicionado aqui pra eu ficar acompanhando! Valeu!

val bonna 25/09/2006: o segundo disco do Blind Melon é um bom companheiro dessa lista. eu adoro!

Luis Nunes : Pô, temos um belo exemplo em terras nacionais… Los Hermanos com o Bloco do Eu Sozinho. Abraço e parabéns, ta muito show o blog…

Will : Ao menos nos EUA, o seguno do Weezer, Pinkerton, afugentou os fãs. O mesmo aconteceu com Seven More Minutos, do Rentals. E temo que o segundo da Wonkavision possa causar o mesmo nos fãs mais xiitas.