5 reproduções
Ween: The Mollusk, 1997
★★★★★
Mais um disco 5 estrelas vermelhas. Daqueles que considero incríveis, mais que nota 5, pra levar pra uma ilha deserta. Petáculo.
O primeiro dessa categoria comentado aqui foi o do Silkworm. Agora é a vez do Ween.
Manja aquelas bandas que você gosta tanto que fica difícil ser imparcial? Bem, vou tentar, na medida do possível, ser pouco passional. Se não conseguir, pena! Afinal, esse site nunca se propôs a ser um exemplo de imparcialidade. Não foi à toa a escolha do nome Aporias.
Numa época não muito distante, nesta mesma galáxia que você se encontra, existia uma emissora de TV muito divertida, musical. Ela tocava clipes quase que 24 horas por dia e era o tipo de programação que dava pra deixar o televisor ligado o tempo todo, quase como uma rádio com imagens. Talvez você não tenha a mínima idéia do que estou falando ou está mesmo pensando “nossa, que legal! como nunca ninguém pensou nisso antes?”. Não, meu amigo, eu não estou falando do YouTube. E sim da MTV. Sério! Aquilo já foi legal, acredita?.
Existia, nessa dita emissora, um programa que mudou a vida de muita gente que conheço, algumas até que frequentam este simpático blog. Não me refiro a programas de plástica ou reforma da sua casa mas a um de música independente chamado Lado B.
Era 1992 e uma quantidade colossal de rock alternativo, independente e divertido chegava aos nossos lares, com a ajuda de imagens “bem loucas” dos videos pré-TV a cabo. Eu e mais centenas de neguinhos, com bombril na antena pra conseguir pegar aquele canal de UHF, conhecíamos bandas como Nirvana, Dinosaur Jr., Jane’s Addiction, Soup Dragons, Beck, Smashing Pumpkins, Belly, Ugly kid Joe (hahaha, foi mal… piadinha!), etc… A era de clipes-fora-de-foco-com-velhos-passando-mal estava apenas começando com Tarsen e seu “Losing My Religion”.
Lá no meio dos clipes do Lado B, uma banda chamava atenção pela bizarrice e originalidade. Tanto visual (o clipe - veja aqui - tinha uma moçada comendo umas coisas estranhas, um baixista bizonho ao lado do vocalista não-tão-normal, dançando de maneira ‘peculiar’) quanto musical (a guitarra tá desafinada de propósito? a voz do cara é essa mesmo? cês tão me zuando né?).
O Ween começava mais como uma piada de amigos do que uma banda que se levava a sério. E, convenhamos, essa característica anti-pop é bem difícil de ser ver por aí.
Os primeiros discos tinham algo de caótico. Experimentalismo, bizarrices, lo-fi, barulheiras, piadas com “minorias sociais”… demência. Tudo organizado de maneira divertida e com boas pitadas de um pop torcido e cínico. Se liga nos títulos de algumas músicas: “Hey Fat Boy (Asshole)”, “Flies on My Dick”, “Touch My Tooter”. O terceiro disco, “Pure Guava”, de 1992 é, pra muita gente, o melhor disco do Ween. Mas ainda trazia esse lado bizarro que, admito, não é pra qualquer um.
Vieram outros discos. E o som foi ficando mais acessível, mais bem gravado… a bateria deixando aos poucos de ser uma eletrônica tosca…. e menos esquisito.
Os dois mais recentes álbuns de estúdio da banda, “White Pepper” de 2000 e “Quebec” de 2003, seus mais vendidos até agora, já mostram músicas mais leves, soltas, bem produzidas, e, em sua maioria, bem acessíveis.
Mas ainda trazem algumas características únicas da banda: o ecletismo (a banda toca de tudo um pouco - do country ao brit-pop, de um hardcore/punk a um latino brega), o sarcasmo, o humor, as pequenas bizarrices sonoras, a diversão. Quando falo de humor aqui não me refiro a paródias ou algo feito pra rir. Eles não são comediantes. São excelentes músicos e compositores.
O que me fez escolher o disco “The Mollusk” pra ser comentado aqui é o fato dele ser um meio termo entre a fase “tosca” e a fase “pop” da banda. Existe um equilíbrio aqui. A produção é muito boa (não mais lo-fi como antes), eles tocam melhor e os temas são pop, mas com um plus a mais. :P
Claro que essas fases que eu cito acima não são absolutas. Não existiu, em determinado momento, uma ruptura. Foi uma evolução no som, constante, mas que, com um distanciamento, é possível identificar elementos diferentes entre essas “fases”.
Há quem diga que eles involuiram, que eles começaram a se levar mais a sério. Eu não acredito em nenhum das afirmações. Chamo isso de maturidade. Acho que o caminho que eles estavam seguindo antes do “Chocolate & Cheese”, de 1994, estava fadado a acabar porque não tinha muito mais como evoluir dentro daquelas bizarrices e não ficar repetitivo.
E, convenhamos, embora extremamente criativo e divertido, eles tinham uma postura mais adolescente que, uma hora ou outra, iria desaparecer. O Ween nunca teve um perfil Rolling Stones ou Ramones ou Kiss de fazer o mesmo som que faziam quando aprenderam a tocar seus instrumentos.
“Polka Dot Tail” é uma polka lenta de letra divertidíssima (“Did you have to dry your eye when you saw that puppy fly?”), “Mutilated Lips” tem um clima sombrio e angustiante, “The Blarney Stone” é um Tom Waits mais bêbado, “It’s Gonna Be (Alright)” lembra um Prince psicodélico, “The Golden Eel” e “Waving My Dick In The Wind” têm um clima dos discos anteriores.
Quase todos seus discos têm um tema instrumental estranho, “Pink Eye (On My Leg)” é o deste. Note o latido de cachorro feito por sintetizadores, enquanto uma linha meio theremin eletrônico se desenvolve. “Ocean Man” é um pop delicioso que virou, recentemente, trilha do Bob Esponja (!).
É uma ótima representação do que o Ween pode ser. E, caso você não conheça, se gostar, possivelmente vai querer explorar melhor ambas as fases da banda.
Bem, acho que consegui ser mais imparcial e não dizer WEEN É DO CARALHO, ARRUMA TODOS OS DISCOS DELES IMEDIATAMENT… uhmm… ops… err… :P
música pra ouvir: Buckingham Green
comentários originais
Gilberto Jr 02/11/2006: Um crítico da Bravo! disse que o novo disco do Caetano, Cê, é totalmente inspirado no Ween. Eu não conhecia, fui conhecer, e é realmente, como disse um certo blogueiro, “DO CARALHO”.
Medina 03/11/200: Ween é foda de bom. ou melhor, FOI foda de bom. eu sou mais um que considera o Pure Guava e o Chocolate and Cheese o ápice da banda / duo. os últimos lançamentos da banda não tem me animado muito. alguns fãs mais xiitas do Ween jogam na minha cara algo do tipo “mas como que você não se empolga com eles hoje em dia??? é o amadurecimento da banda, etc, etc, etc.” podem ter amadurecido sim, mas acho que perderem muitas coisas que eu curtia na banda nesse processo de “amadurecimento”. Ween sempre vai morar no meu coração, mas graças ao passado “retumbante”. abração!
Mari 08/11/2006: Puxa, mto bacana!
Pablo 27/10/2007: Man, nem cheguei ao final do texto, mas resolvi comentar depois do “Aquilo já foi legal, acredita?”… Fantástica definição do atual lixo que é este canal, um “aquilo” e no máximo!
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