3 reproduções
André Popp: Delirium In Hi-Fi, 1957
★★★★
Back to Basics. França, 1957.
Em plena era Space-age Pop, um sujeito, filho de tocador de órgão de igreja, pegou temas conhecidos da época como “La Paloma” e os levou pro estúdio. Com a ajuda do produtor Pierre Fatosme e de inúmeros tape-recorders (daqueles de rolo), gravou as linhas das músicas com instrumentos tradicionais. Então pegou essas fitas e começou a brincar: tocar de trás pra frente, acelerar, tocar duas fitas simultâneas com uma pequena diferença de tempo entre elas, desacelerar muito um trompete até parecer um baixo. Além de efeitos normais como eco, vozes duplas, inserções, montagens de fragmentos…
Até aí nada de mais se pensarmos na história da música erudita eletrônica… mas num disco pop?
André Popp criou um disco revolucionário em sua época. Alucinatório, foi, porque não dizer, um começo da era dos samples. Ouvir esse disco é uma experiência curiosa. Tudo soa divertido, extremamente bem-humorado e até, pros dias de hoje, um tanto naïf.
Mas, apesar do que foi escrito no começo do texto dar a entender o oposto, tudo foi planejado antes da gravação propriamente dita. Até que o disco não tivesse todo rascunhado pelo músico e pelo produtor Fatosme, Popp não gravou nada. A idéia era fugir dos “efeitos sonoros espaciais” tão comuns na época. É, antes de mais nada, um disco de música que, se ouvido sem muita atenção, quase não se nota o que ele tem de mais interessante: justamente a construção das músicas e sonoridades curiosas, devido às manipulações dos tapes.
Um recurso curioso usado pro André neste disco foi o seguinte: pegou uma determinada frase cantada e gravou. Tocou de trás pra frente e pediu pro cantor memorizar para, em seguida, gravar e tocar. Depois disso, finalmente, reverteu o som. O efeito foi único. Eu sei, meu caro amigo metaleiro, que aqueles cabeludos de voz fina fizeram isso na década de 80 mas, veja bem, estamos em 1957… seus ídolos do rock pauleira nem tinham nascido ainda!
Esse disco foi lançado originalmente, sabe-se lá Deus porque, sob o pseudônimo de “Elsa Popping and her Pixielanders” com a (ótima) capa abaixo:

Popp seguiu com seus experimentos com manipulação de tapes depois disso, além de fazer trilhas sonoras mais convencionais para filmes franceses… mas depois da “grande sacada”, todo o resto soou menos original, porém, com qualidade. Afinal, mesmo antes de ter a idéia de fazer o Delirium In Hi-Fi ele já era um bom e respeitado compositor.
Este álbum foi lançado em CD em 1996.
música pra ouvir: Perles De Cristal
