10 reproduções
Yusuf Islam: An Other Cup, 2006
por Sérgio Vaz
★★★★
A volta do dom divino que a fé em Alá calou
Se você ainda não ouviu, vá atrás de um disco chamado An Other Cup, de um tal de Yusuf. Esse sujeito é um dos dois maiores, melhores e mais profícuos criadores de melodias pop dos últimos 60 anos. Igual a ele, só Paul McCartney.
Os maiores, os melhores? Esses conceitos são subjetivos, cada um tem os seus. OK, tudo bem, perfeito. Você pode achar que Kurt Cobain é imbatível, ou, se gostar de coisas mais antigas, talvez tenha a certeza de que Keith Richards é o maior e o melhor.
Mas veja só: esse Yusuf botou 11 músicas entre as mais vendidas e tocadas entre 1971 e 1977 nos Estados Unidos; todos os seus dez primeiros álbuns foram disco de ouro na Inglaterra ou nos EUA – ou nos dois. Naquela época, tinha trocado o nome de nascimento, Steven Georgiou, por um inventado, Cat Stevens. Deste nome você certamente se lembra.
Steven Georgiou, quer dizer, Cat Stevens, era um brilho. Lennon-McCartney, Jagger-Richards, Page-Plant num homem só, tinha o dom raro de criar, numa quantidade espantosa, melodias que misturavam a suavidade do folk com o balanço do rock, gostosas, fortes, contagiantes, fáceis de assobiar, dessas que grudam na orelha da gente e fazem balançar o corpo mais duro. E era também o autor de todas as letras – versos diretos, curtos-e-grossos, mas de grande sensibilidade, que iam muito além da descrição de paixonites adolescentes e demonstravam uma grande inquietação espiritual, uma busca por um sentido maior.
Seu quarto álbum, Tea for the Tillerman, que estourou nas paradas americanas (e puxou as vendas dos anteriores), foi lançado em 1971, na explosão dos singers-songwriters, como Joni Mitchell e Carole King, e por isso ele foi chamado lá de o James Taylor inglês. Naquela época, todos adoravam James Taylor – e todos adoravam Cat Stevens. Além de ser autor de boas letras e boas músicas, e de ter uma belíssima voz, ainda por cima o cara era boa pinta.
E ainda tinham os engenheiros de som. Os engenheiros de som ingleses são melhores que todos os outros, isso todo mundo sabe. Basta lembrar a mística que se criou em torno dos estúdios Abbey Road, onde até hoje são remixados discos de artistas importantes do mundo inteiro (inclusive Milton Nascimento e Paulinho da Viola). Ou de Alan Parsons, o engenheiro de som do Pink Floyd que virou líder de banda. Mas os engenheiros de som que trabalhavam com Cat Stevens eram o máximo do máximo – e tinham uma imensa liberdade de criação. Eles alternavam o volume no meio das músicas, faziam os instrumentos dançarem de uma caixa acústica para outra (ainda no tempo de apenas quatro canais), botavam ruídos vários e vozerio de gente no meio das músicas. Os modernos subwoofers adoram o que aqueles caras faziam nos pré-históricos (em termos de tecnologia) anos 60 e 70.
A força das canções de Cat Stevens era (e é) tão grande que elas voltaram várias vezes à lista das mais vendidas e tocadas. O jamaicano Jimmy Cliff gravou “Wild World” e botou a música entre as dez mais da Inglaterra; quando veio a gravação do autor, ela de novo foi parar no alto. No final dos anos 70, Rod Stewart regravou “The First Cut is the Deepest” (de 1967) e a canção voltou ao topo das paradas tanto nos EUA quanto na Inglaterra; em 2003 Sheryl Crow levou a mesma música ao Top 20 americano. Em 1996, a louraça peituda (em todos os sentidos) Dolly Parton chamou os africanos do Ladysmith Black Mambazo para participar da regravação que ela fez de “Peace Train” (de 1971). Uma coletânea com 18 das mais conhecidas canções dele bateu de novo no alto do hit parade em 1990 – muito tempo depois que o autor tinha sumido do mapa.
Sim, porque, em 1977, o Steven Georgiou, filho de grego e sueca, nascido em Londres em 1947, tornado milionário e superstar mundial como Cat Stevens, jogou fora o nome famoso e virou Yusuf Islam. Agarrou o islamismo com a mesma força com que balançava o corpo no palco. Consta que leiloou o que adquirira ao longo de 12 anos de sucesso no show business, e abriu uma escola nos arredores de Londres para ensinar os princípios islâmicos. Só voltou a ter destaque nos tablóides ingleses quando cometeu a asneira de fazer uma declaração de apoio à sentença de morte dada ao escritor Salmam Rushdie pelos aiatolás do Irã (tem sempre um aiatolá pra atolar, como dizia a música da Rita Lee).
Entre 1995 e 2004, Yusuf Islam usou sua bela voz em cinco discos, não para cantar, mas para declamar poemas, versículos e histórias relacionadas ao Islã e ao profeta Maomé.
E aí, em 2006, quase 30 anos depois de ter dado uma banana para o mundo da música pop, gravou An Other Cup.
Quase 30 anos são tempo demais. Englobam gerações inteiras, milhões e milhões de pessoas que nasceram depois do lançamento de Back to Earth, seu 11º disco, que chegou às lojas em 1978, já depois da conversão de Steven Georgiou-Cat Stevens em Yusuf Islam. Incluem a criação e a decretação da morte do CD, o advento da internet, do download de música, do formato MP3, do iPod e suas tentativas de arremedo. E neste período de quase 30 anos houve o 11 de Setembro e os ataques do terrorismo árabe em Madri e em Londres, mais as guerras de Bush no Afeganistão e no Iraque.
Em 2005, Yusuf Islam foi barrado e proibido de entrar nos Estados Unidos pelo governo Bush. Justamente o autor de “Peace Train”, um dos maiores hinos que a música popular já fez em defesa da conciliação entre os homens. A direita raivosa americana confunde islamismo com terrorismo – mas, infelizmente, não é só ela. Depois de centenas e centenas de mortes causadas por terroristas árabes, difundiu-se no Ocidente uma imensa má vontade, para se dizer o mínimo, em relação a tudo que tem a ver com o islamismo.
Tudo isso – os quase 30 anos, o terrorismo dos radicais islâmicos – pode explicar por que, ao contrário do que se poderia esperar, An Other Cup não estourou, passou longe da lista dos top 10, ou mesmo dos top 40 – embora em geral o disco tivesse recebido boas críticas. Danem-se as listas dos top isso ou aquilo, dane-se o sucesso estrondoso. An Other Cup é um belo disco – uma boa descoberta para quem nunca ouviu Cat Stevens, uma tremenda emoção para quem já gostava dele.
Numa fantástica prova de que é possível mudar e ao mesmo tempo ser coerente com o passado, Yusuf usou, em An Other Cup, vários dos músicos que o acompanharam naquela outra encarnação, lá atrás – os guitarristas Alun Davies e Jean Roussel e o baixista Danny Thompson.
Para ficar só em alguns dos grandes momentos:
O disco abre com “Midday (Avoid City After Dark)” – primeiro, um violão acústico e uma suave percussão; em seguida, junto com baixo, piano e bateria, vem a voz do cara, ainda bela, inimitável, marca registrada, numa melodia rica, que pega e marca já na primeira audição; no intermezzo entre uma estrofe e outra, entra o sopro, alto, vibrante, forte, marcante.
Começa a segunda faixa, “Heaven/Where True Love Goes”, e aí está o velho Cat Stevens. Os antigos fãs reconhecem imediatamente a melodia insinuante, gostosa, alegre – opa, essa ele já gravou, sim, mas qual é mesmo a música? Pode-se levar algum tempo para identificar. Essa “Heaven” é uma das cinco ou seis belíssimas melodias que ele juntou na longa (18 minutos e 19 segundos) “The Foreigner Suite”, que ocupava o primeiro lado inteiro do LP Foreigner, de 1973. A essa velha maravilha junta-se uma canção nova, “Where True Love Goes”. As duas se dão bem como goiabada com queijo.
A terceira faixa, “Maybe There’s a World”, é a primeira explicitamente espiritualista, quase religiosa. É assim uma espécie de “Imagine” à la Cat Stevens, ou melhor, Yusuf Islam: melodia suave, mas forte, que pega a gente de primeira, e versos de quem acredita que a humanidade pode fazer melhor do que tem feito nos últimos séculos, milênios: “I have dreamt of an open world, borderless and wide, where the people move from place to place and nobody’s taking sides” (Sonhei com um mundo aberto, sem fronteiras e largo, onde as pessoas se mudam de um lugar para outro e ninguém está tomando partido).
A faixa 8 é a segunda e única em que Yusuf regrava uma canção do velho Cat Stevens, “I Think I See the Light”, do disco Mona Bone Jakon, de 1970. Naquele tempo Georgiou-Stevens-Islam já procurava uma luz mais forte.
A décima e penúltima faixa, “The Beloved”, é um hino ao profeta Maomé. Uma melodia cheia de toques árabes, com um acompanhamento denso, pesado, instrumentação complexa, que até lembra a muralha sonora de Phil Spector. É uma canção perfeita para quem quer falar mal do disco como um todo e do artista inteiro. Ah, é religioso, é panfletário, e o som é rebuscado demais, podem dizer os críticos. O engraçado é que ninguém reclamou quando George Harrison fez “My Sweet Lord”, e Bob Dylan fez o disco Slow Train Coming, tudo religiosérrimo, panfletarérrimo, o primeiro pró Buda, o segundo pró Cristo. Por que pró Buda pode, pró Cristo pode, e pró Maomé não pode?
Mesmo quem resolver ouvir An Other Cup com todos os preconceitos possíveis, com a firme intenção de não gostar, correrá o risco de se desmanchar diante da faixa 7, “Don’t Let Me Be Misunderstood”.
Ao longo de toda a carreira, Cat Stevens fez pouquíssimos covers de músicas de outros autores – seguramente não mais que cinco. Pois ele resolveu regravar essa música que os Animals tornaram sua marca registrada nos anos 60, teve uma regravação marcante pelo Santa Esmeralda em 1977, no auge da era disco, ocupando um lado inteiro do LP, e por Nina Simone, a extraordinária cantora que simplesmente não deixa espaço pra ninguém gravar a mesma música que ela já gravou.
Pois Yusuf Islam põe tanta força, tanto de sua história pessoal e de sua maestria como cantor, que consegue nos fazer esquecer a versão dos Animals, suplantar a interpretação de Nina Simone e dar novo significado à letra. “I’m just a soul whose intentions are good; oh Lord, please don’t let me be misunderstood” (Sou apenas uma alma cujas intenções são boas; ó Deus, por favor não me deixe ser mal compreendido). Em meio a pizzicato de violinos, ele canta tão devagar, escandindo tanto as palavras para mostrar o que elas querem dizer que quase recita. É de arrepiar.
Depois de ouvir e reouvir e reouvir de novo esse disco, fica difícil não pensar uma coisa do tipo: mas que raio de fanatismo é esse capaz de silenciar por quase 30 anos um artista tão especialmente dotado por Deus, Jeová, Tupã, Oxóssi, Alá – seja qual for o deus?
música pra ouvir: Midday (Avoid City After Dark)
comentários originais
Joao 08/06/2010 às 5:14 pm caramba, genial em cada palavra e nada mais digno, yusuf é um genio da musica pop, entre os top 10 ou nao.
Jose Geraldo Toledo Filho 22/12/2009 às 9:36 pm Ao escutar pela primeira vez Tea for the Tillerman na decada de 70 imediatamente quis saber quem era aquele cara que conseguia encaixar perfeitamente a voz naqueles acordes e tive a certeza que aquela era exatamente o tipo de musica que vale a pena ser ouvida . Cat Stevens acompanhou minha adolecencia e continuou por toda minha vida . No recesso de 30 anos quando Cat Stevens deu lugar a Yussuf Islam eu pensava …como um cara com aquele talento poderia deixar de fazer aquilo que mais amava para se dedicar a um Deus que nós ocidentais não tinhamos muita simpatia , logicamente por nossa ignorancia . O que ele fazia para não compor ..para não cantar ..para não tocar …Como ver o violão e não puxar os primeiros acordes de Father and Son (se ele tivesse visto o Suplicy cantando não teria gravado mais nada mesmo ..rs )…Well ..Graças a Alá ele voltou e espero que não pare mais .
João Marcos 31/12/2008 às 3:56 am Quando tomei conhecimento de um novo disco realizado pelo excelente Stephen Demetre Georgiou – Yusuf Islam, desejei ouví-lo, curti-lo como se deve com um trabalho desse quilate porém só pude fazê-lo este ano mas fiz e então? Um disco perfeito sob todos os pontos de vista. Ele é o dono daquela voz de trinta anos atrás, inconfundível.
Alan 02/07/2008 às 10:06 pm Trabalho muito bom!É o primeiro contato que estou tendo com a música de Yusuf.Música clara.Ótimos arranjos!
Luís Melo 17/01/2008 às 10:43 am Excelente post! Cat Stevens ou Yusuf ou Georgio, não interessa, a sua música transborda emoção, sabedoria e principalmente paz de espirito. É pena não existirem mais Cat Stevens neste nosso mundo cão, mais pessoas que nos façam parar para pensar, reflectir no que de errado temos feito nesta nossa passagem pela Terra, nós Humanidade pois somos os principais culpados de toda a miséria mundial. Ele converteu-se ao islamismo e deixou de ser o cantor lirico que apaixonava gerações. Porquê? Porque simplesmente o ser humano não sabe avaliar a essência do ser como tal e vai de encontro ao que lhe é imposto por “lobbies” mundiais. Parabens Sérgio pelo excelente trabalho de pesquisa.
flavio santos 08/11/2007 às 10:04 pm É, o cara continua muito bom!
Lulu Camargo 04/09/2007 às 7:53 am Eu adoro essa categoria de artistas que mudam de nome: Cat Stevens, Jorge Ben, Prince e Walter Carlos.
Darisbo 31/08/2007 às 9:42 pm Bom, para ler este meu comentário, vamos considerar que ele tenha mesmo se calado por 30 anos. (Eu discordo; gosto bastante daquele disco coletivo pró-Bósnia, “I Have No Cannons That Roar” que ele gravou em 2000 com mais uma meia dúzia de colaboradores. Mas vamos lá:) Acho fanatismo uma palavra meio forte para essa opção do Gato Estêvão (seja qual nome estiver usando, é ele) de gravar o que gravou durante este tempo. Tanto que agora, lançando “An Other cup”, ao que parece ele continua acreditando nas mesmas coisas. Não é mais música “crente”, mas os temas são os mesmos. Pode ser saudável dar uma parada, mesmo que seja por muito tempo, para fazer um balanço e voltar com um disco ótimo, coerente e equilibrado. Pode caber aqui um paralelo entre essa “parada” e aquele período da carreira do Dylan entre o “Street Legal” e o “Infidels”. Passou, Dylan aprendeu com isto, está vivo e bem e, de algum jeito, esse período continua com ele. Quanto ao Yusuf, não vamos compreender mal o cara. E, sinceramente, é muito bom ouvir um disco como esse depois de todo este tempo, na hora certa. Provavelmente, se o mesmo disco tivesse sido lançado cinco anos antes, não teria um impacto tão forte. E, se fosse dez anos antes de hoje, não seria tão necessário. As coisas têm seu tempo. Eu passei uns bons dois meses no início do ano com o Other Cup e o “Modern Times”, do outro citado, no tocador. Dois discões, lindos e para serem degustados aos poucos. Abraços
Richarley Menescal 30/08/2007 às 6:20 pm Caracas… isso não é uma resenha, é praticamente um estudo científico sobre o disco! Hehehe! Excelente!
