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Madeleine Peyroux: Dreamland, 1996

★★★★

Ela estava atrasada, resolvi esperar no bar do hotel.

- Garçon!

- Boa noite, senhor?

- Bela noite. Veja a lua!

- Deseja um drink, senhor?

- Sim, um whisky sour, com pouco açúcar, por favor.

- Perfeitamente, senhor. Com licença.

- Obrigado.

O amendoim, menos crocante que o esperado, acalma o estômago incomodado. Uma magra jovem de feições francesas sobe ao pequeno palco, delicadamente sentando-se ao banquinho. Outros músicos se juntam a ela.

La Vie En Rose começa e penso “ok, de novo mais um desses Jazz de Bar de Hotel™”. Logo no primeiro minuto já dá pra notar que a coisa não é bem por aí.

Olho com mais atenção para o guitarrista, discreto… Não seria o Marc Ribot? Uhmm… Certeza! Eu reconheceria o jeito dele tocar de olhos fechados. Do lado é o… como chama mesmo?… Greg Cohen! Isso. Kenny Wollison do outro lado? James Carter? Cyrus Chestnu? Vernon Reid? Pera, isso tá ficando bom.

Meu drink chega.

- Obrigado.

Droga, puzeram muito açúcar.

Que seja, o som tá bom.

Essas músicas me soam muito bem. São bem tradicionais, aquela coisa tranquila com gosto de Billie Holiday, mas nem todas as músicas são conhecidas. Ela deve compor também, além de interpretar deliciosamente bem.

Meu telefone toca.

- Ah, você vai se atrasar mais? Tudo bem.

Os temas vão se desenvolvendo com uma delicadeza ímpar: swing standards, blues, country e folk com clima anos 20 e 30. Entre composições próprias (descobri perguntando pro senhor de gravata púrpura da mesa do lado, que parece ser fã de longa data), aparecem um Fats Waller, Bessie Smith e a já citada Billie Holiday. Pra tocar a “Always a Use”, ela mesma assume o violão.

- Garçom, mais um whisky sour! Ah! E outra porção de amendoim, por favor.

Excelente. Aquele piano tá ótimo. Básico, perfeitamente bem tocado, nenhuma nota a mais ou a menos.

Que voz!

Mas será possível, esse barman tá com problema no açucareiro!

Uhmm… bem, acho que tenho que ir agora. Últimos goles.

Aproveito pra comprar o CD na porta do bar. É de 1996, lançado pela Atlantic. Nunca tinha ouvido falar dela, mas parece que é famosa. A Time considerou esse disco como “a mais excitante, envolvente performance vocal feita por uma nova cantora no ano (de 96)”, seja lá o que isso queira dizer.

Fiquei sabendo depois, pelo barman, ao reclamar do excesso de açúcar de seus drinks, que ela sumiu depois desse disco e só voltou em 2004. Aí, lançou 3 discos, sendo o último em 2006, com participação de K.D. Lang e tocando, além das composições próprias novas, canções de Serge Gainsbourg e Tom Waits.

Voilá!

Agora vou jantar. Longe daquele barman.

Não sei porque não pedi um vinho…

Site oficial com todas suas músicas pra escutar.

Veja seus videos no last.fm

música pra ouvir: I’m Gonna Sit Right Down And Write Myself A Letter

comentários originais

jvlav 07/04/2008 às 9:21 pm como sempre um bom post ! abraço

Brian Morris 01/04/2008 às 3:26 pm Em 1996, estava num restaurante curtindo minha comida italiano quando ouvia numa música muita boa no outro parte do restaurante. A voz dela era bem paricido de Billie Holiday. Pensei, que legal eles está tocando ela. Pensei de novo, hmmm, o sound system tem alta qualidade, parece Billie está lá! Com curiosidade, fui lá. Era Madeleine Peyroux, cantando, tocando uma violão (Terence Blanchard tocando trompete). Deixe minha comida pra lá, heh. Depois, conversei um pouco com ela, comprei um CD. Desde aquele dia, sou fã #1 dela.

Carlos Bêla 23/03/2008 às 8:56 pm valeu dudu! espero que tenha curtido o som também! abraço

dudu colmeia.tv 23/03/2008 às 6:04 pm belo post, meu velho

Beastie Boys: The Mix Up, 2007

★★

Há não muito tempo, nesta mesma galáxia, o nome Beastie Boys era associado à inovação, criatividade e bom-humor. O trio já lançou discos divertidos e adolescentes como o Licensed To Ill, ambiciosos como Paul’s Boutique, um marco na história dos samples e ecléticos como Check Your Head.

Mas o que deu nessa rapaziada gente-fina?

To The 5 Boroughs, de 2004, não emocionou muito e agora esse instrumental The Mix Up… mano, que sono!

Nada contra climas sussas, mas cadê aquela pegada de outrora? A compilação japonesa lançada em 2001 (The In Sound from Way Out!), só com instrumentais funk-soul-jazzy do grupo, mostrou que dá pra fazer um disco gostoso de escutar e bater o pezinho, mas com classe, estilo e pompa.

Agora, esse aqui tá triste… Mike D, Ad-Rock e MCA, o que será do futuro da banda de vocês, uma das mais divertidas da história do Pop?

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Vários: Cuisine Non-Stop- Introduction to the French Nouvelle Generation, 2002

★★★★

Luaka Bop, fundado em 1988 por David Byrne (Talking Head), é daqueles selos que têm um catálogo pequeno, tímido e pouco atualizado mas que, quando sai algo novo do forno, quase sempre é garantido.

É o caso desta coletânea de artistas franceses de rock/pop alternativo. Ricas texturas, misturas e sabores num disco sem cara de francês pra-gringo-ver. São bandas praticamente desconhecidas fora da França - e até mesmo dentro - que juntam referências afro, cigano, rap, electronica, folk, dub e alguns gainsbourguismos no meio, como não poderia deixar de ser.

Este selo que ajudou a expalhar nomes brasileiros como Tom Zé e Mutantes pelo mundão afora, além de artistas como Zap Mama, Vijaya Anand (que terá uma resenha aqui brevemente), Shoukichi Kina, Cornershop e outros. Suas coletâneas são sempre interessantes, com destaque a Love’s A Real Thing: The Funky Fuzzy Sounds of West Africa.

“Perfect if you’re in the mood for something eclectic, exotic or just a bit different” - dizem eles mesmos.

Site Oficial Luaka Bop

música pra ouvir: Baji Larabat da banda Lo’Jo